A memória tropeira de Itapetininga está em ruínas

O casarão do Registro Velho, no antigo bairro do Porto, em Itapetininga, considerado a marca mais expressiva do caminho das tropas em território paulista, está ameaçado de ruir. O velho prédio, de estilo colonial, data de meados do século XIX, na avaliação de Jaelson Bitran Trindade, especialista do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que visitou o local há alguns anos, fotografando o casarão ainda em bom estado. No início deste mês, durante um vendaval seguido de tempestade, o prédio foi atingido por uma árvore, provocando sérios danos no telhado, beirais e…

Visão geral da revisão

O casarão do Registro Velho, no antigo bairro do Porto, em Itapetininga, considerado a marca mais expressiva do caminho das tropas em território paulista, está ameaçado de ruir. O velho prédio, de estilo colonial, data de meados do século XIX, na avaliação de Jaelson Bitran Trindade, especialista do Condephat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), que visitou o local há alguns anos, fotografando o casarão ainda em bom estado. No início deste mês, durante um vendaval seguido de tempestade, o prédio foi atingido por uma árvore, provocando sérios danos no telhado, beirais e na parede da frente.

Quem dá esta triste notícia é o jornalista e historiador Sérgio Coelho de Oliveira e o artista plástico Francisco Stein, que estiveram na semana passada no bairro do Porto, colhendo informações para um trabalho sobre o trecho paulista do caminho das tropas. Segundo o caseiro Milton Gabriel de Souza, que há 47 anos cuida da atual Chácara Lucinda,  “novas chuvas e a umidade natural do lugar, coberto de árvores, põem em risco maior a velha construção”. Segundo ele, o atual proprietário, engenheiro Serafim, já tomou conhecimento dos estragos e deverá providenciar a sua reparação.

A história do bairro do Porto, onde se localiza o Registro Velho, perde-se no tempo entre lendas, boatos e documentos. Contam os moradores da região, formada pelos antigos pousos de tropeiros, Capivari, Porto, Antas, Varginha etc, que tanto o porto no rio Itapetininga, como a barreira para cobrança de impostos são do tempo dos bandeirantes, passando depois a dar apoio aos tropeiros, que pagavam uma taxa chamada portagem para usar a ponte na passagem do rio.

A velha ponte também está lá, em total ruínas. Toda sua estrutura, construída de imensas toras resiste debruçada sobre as águas do Itapetininga. Sem o tabuleiro, a ponte, atualmente só serve de trapézio para os bandos de esquilos, que vivem no lugar.

Lendas e história

Consultando os livros de história de Sorocaba e de Itapetininga é possível garimpar algumas informações, que podem ajudar a esclarecer a história do Registro Velho. Aluisio de Almeida, por exemplo, no livro “Vida e Morte do Tropeiro”, registra: “o primeiro livro para o lançamento de animais, que passaram na barreira do Itapetininga começa em 19 de abril de 1854 e está no Arquivo Público do Estado de São Paulo”. Essa informação nos permite deduzir que o local já era passagem das tropas que vinham do sul e já tinha a ponte, antes dessa data, portando há no mínimo 165 anos. Continua o autor sorocabano, informando que a 4 de agosto de 1854 passou a primeira tropa, conduzida pelo tropeiro Manuel Joaquim de Andrade, conduzindo 73 bestas e 1 cavalo.

O mesmo documento revela que o Registro do rio Itapetininga foi criado na mesma época da emancipação da Província do Paraná, para substituir o Registro do Rio Negro. Mais ainda, era seu administrador Antonio Joaquim da Silveira e o escrivão, Francisco Caracciolo Xavier de Moraes. Logicamente que deveria existir uma casa para sediar o Registro. Basta saber se era essa, que está lá no bairro do Porto e que aparece no mapa de São Paulo, editado em 1929.

Em outro trecho de seus relatos históricos sobre a abertura das estradas de Sorocaba a Curitiba, na segunda metade do século 18, Aluisio de Almeida informa ainda: “Houve já dois registros nos rios Paranapanema e Itapetininga, que em 1724 passaram a ser dirigidos por Miguel Sutil de Oliveira”, bandeirante sorocabano.

O historiador Rodolfo Ernesto da Silva Diniz, que se dedicou ao estudo de “A evolução territorial do município de Sorocaba”, ao relacionar as sesmarias doadas na primeira metade do século 18, no termo de Sorocaba, cita uma que nos interessa: “Sesmeiro – Ângelo Cardoso de Campos. Local, começando no porto de Itapetininga até o rio Capivari. Data  12/03/1726”.

Vale a pena ainda citar o livro “Itapetininga, ontem e hoje”, onde o historiador Carlos Fidêncio escreve o seguinte: “De Sorocaba para o sul, os tropeiros iam de forma regular, criando ao longo do caminho, locais de pouso.: eram os ranchos e arraiais. Num deles, à margem do rio Itapetininga, num ponto de vau e, portanto, conveniente para o estabelecimento de um registro de passagem de animais, nasceu por volta de 1724 o primeiro núcleo da história de Itapetininga”.

A LENDA DA MULA RUANA

Região de ocupação mais do que secular, é natural que tenha muitas histórias, que viraram lenda e muitas lendas, que viraram história. A respeito do bairro do Porto ou Registro Velho, surge a lenda da Mula Ruana, que faz parte da história da fundação de Itapetininga, em 1770.

O relato que se segue está baseado em publicação feita pelo jornal “Diário Popular”, em entrevista com desenhista e pintor Francisco Souza Moraes, que na época residia na terra dos Prestes.

A lenda da Mula Ruana é muito pitoresca. Personagens da história de Itapetininga nela se envolvem, dando a ela um colorido de autenticidade. Vejamos.

Domingos José Vieira ao conhecer o “Pouso dos Tropeiros”, às margens do rio Itapetininga, resolve deixar Sorocaba, onde residia e, em companhia da esposa e de alguns amigos fixou residência no referido pouso. Lá chegando, lavram a terra, plantam cereais e o pouso logo se transforma em próspero arraial. Irrequieto, porem, Domingos Vieira muda-se de “mala e cuia”, como diz o ditado, para o local, onde hoje  se encontra Itapetininga, distante 6 quilômetros do aludido pouso, ali fundando um novo arraial. É quando Pascoal Leite de Moraes, juntamente com alguns forasteiros, chega ao pouso abandonado.  Aproveitando os casebres, deixados ao abandono, ali se estabelece, dedicando-se com afinco à lavoura e à criação de animais. O núcleo ressurge com progresso lento, mas constante. Com o desenvolvimento dos dois arraiais, aumenta também a rivalidade entre os dois fazendeiros. Ambos passaram a reivindicar o direito de sediar a vila, que certamente haveria de ser criada na região.

Nessas alturas, lá por volta de 1750, surge outro personagem importante na lenda. Simão Barbosa Franco, que chega ao arraial, com ordens expressas da coroa portuguesa de fundar ali uma nova vila, como eram chamadas as cidades, naqueles tempos.  Recebido por Domingos José Vieira, agora um abastado fazendeiro, podendo, portanto, acolher condignamente, o ilustre visitante, enviado especial de Sua Majestade. É aí que entra em cena a famosa mula ruana.

Interesseiro e astuto, Domingos José Vieira tinha em seu rebanho uma mula ruana, que era seu xodó. Porte esbelto, pelo sedoso e boa marchadeira. Barbosa Franco ficou encantado com a mula, colocada a sua disposição para visitar a região.  No final da inspeção, já nas terras de Pascoal Leite de Moraes, sempre montando a famosa mula, cujas qualidades não se cansava de elogiar, ele termina a sua missão. Então, o ilustre visitante prepara-se para partir.  É quando recebe de Domingos José Vieira a cobiçada mula ruana de presente.

Bem, diz a lenda, por interferência da bela mula, o arraial escolhido foi o de Domingos José Vieira, local onde se assenta, hoje, a cidade de Itapetininga.

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