LIÇÕES DE TROPEIRISMO

Vamos iniciar, hoje, uma série de artigos – LIÇÕES DE TROPEIRISMO – com o objetivo de dar uma visão geral da saga tropeira, desde a chegada dos primeiros muares na América do Sul até serem trazidos para o Brasil, como solução para os problemas de transporte e abastecimento. Era o ano de 1732, o país vivia o ciclo do ouro.

Vamos começar a nossa história lá pelos anos de 1700. O Brasil não conhecia nem o burro e nem a mula e muito menos o trem, o caminhão e o avião. O transporte era feito no lombo dos pobres índios escravos, que eram obrigados a andar centenas de quilômetros para entregar um saco de feijão ou de milho. Conta-se, na história de Sorocaba, que Baltazar Fernandes, grande plantador de trigo e produtor de farinha, enviava a sua produção para o Rio de Janeiro e Salvador da Bahia, através do porto de Santos. Mas, para chegar até Santos, a mercadoria ia nas costas dos índios, através de trilhas perigosas, na Serra do Mar.

Mas, e os cavalos, os bois? Estes já existiam, o cavalo é um animal bonito, admirável, mas não tem muita força, não tem resistência. Não aguenta essas caminhadas, carregando peso. Não suporta os terrenos acidentados. E os carros de boi? Também não eram solução, porque não existiam estradas no Brasil dessa época, só caminhos e trilhas. Quem ajudava um pouco no transporte das pessoas e da produção era o barco, somente nas regiões servidas por rios navegáveis.

Para resolver esta questão complicada do transporte no Brasil colonial, surge a figura do bandeirante paulista Bartolomeu Paes de Abreu, um herói brasileiro muito pouco conhecido. Ele morava numa fazenda perto de Curitiba, mas já tinha viajado por todo o Brasil, conhecia o norte e o sul. Sabia, por exemplo, que nas minas gerais, onde corria o ouro, as pessoas estavam
morrendo de fome. Não tinham o que comer, e para matar a fome os mineiros comiam gatos e cachorros, caçavam bicho de todo tipo no mato e até se serviam das raízes das árvores. Com tanto ouro, com tanta pedra preciosa à vista, ninguém queria plantar feijão ou criar um porquinho e uma galinha para saciar a fome.

A pouca comida que abastecia os garimpos vinha de São Paulo, do Rio de Janeiro ou do Nordeste. E no lombo dos índios. Um saco de feijão, transportado assim, levava dois meses, de São Paulo à região de mineração.

O velho bandeirante sabia mais. Sabia da existência, nos pampas da Argentina, de grandes manadas de burros e mulas, vivendo no bem bom, com água e capim fresco, por falta de trabalho. Esses animais, especializados em transporte de carga, tinham vindo da Espanha para resolver o problema do transporte da prata das minas de Potosi, na Bolívia. Com a decadência das minas de prata de Potosi, esses animais ficaram sem trabalho. Estavam ali ociosos, desempregados. (continua na Lição II)

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.Os campos obrigatórios são marcados *

*